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XXVII
Encontro Estadual das Entidades Ecológicas
10 e 11 de novembro de 2007 – Viamão / Porto Alegre, RS
DOCUMENTO DE ANÁLISE DA CONJUNTURA DAS POLÍTICAS DE
MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO
Há trinta e cinco anos, quando ocorreu a I Conferência da ONU sobre Meio
Ambiente em Estocolmo, o Clube de Roma já alertava para a insustentabilidade do
modelo econômico de crescimento ilimitado. Nos dias de hoje, contudo, ainda não
se conseguiu modificar esse sistema irresponsável e irracional que está
produzindo alterações desastrosas, por exemplo, nos equilíbrios climático e
ecológico do Planeta.
Atualmente, o novo ciclo de expansão econômica está gerando uma
fragilização crescente dos direitos sociais e da gestão ambiental no mundo
inteiro e, em especial, nos paises considerados emergentes. Em um contexto de
“Estado Mínimo”, os recursos aplicados em Meio Ambiente tornam-se cada vez mais
minguados e o já precarizado sistema de licenciamento ambiental acaba sendo o
principal alvo para o afrouxamento das “barreiras” ambientais. É impressionante
que mesmo com o cenário trágico das mudanças climáticas, incontestavelmente
relacionadas ao modo de vida da sociedade moderna, o setor econômico não tenha
se sensibilizado, reproduzindo velhas fórmulas de crescimento a todo custo.
No Brasil, a opção pelo mercado globalizado destrói pequenas economias,
aprofundando o modelo exportador que sempre visou melhorar os tradicionais
indicadores econômicos, como o PIB. Exportam-se commodities, com baixo valor agregado, como a soja, a pasta de
celulose e os metais, como aço e alumínio. O país mantém o envio ao exterior de
seus recursos naturais e fica com os prejuízos ambientais. As metas de
superávit e do chamado “risco país” acabam sendo jogos perversos, favorecendo o
capital especulativo, onde os indicadores de qualidade de vida não estão
contemplados.
No Brasil o verdadeiro risco é outro. Grande parte dele está
representado pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O PAC resgata a
velha concepção de país como “potência econômica”, por meio de velhos e
gigantes empreendimentos gestados, em sua maioria, há mais de trinta anos em
pleno governo militar. Naquela época, a sustentabilidade ambiental e a
distribuição de renda estavam longe da lógica desenvolvimentista. Símbolo disso
foi Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo que, mesmo com a destruição de
Sete-Quedas e o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas, foi mostrada
para a sociedade como motivo de orgulho nacional. O mesmo aconteceu com a
malfadada Transamazônica, a Hidrelétrica de Balbina e as caríssimas usinas
nucleares de Angra. Atualmente, a meta de 5% de crescimento do PIB, proposta
pelo governo acaba sendo a justificativa para tudo. Ou seja, agora não mais
importa o “meio” e sim o “fim”.
O novo ciclo de expansão econômica dos grandes conglomerados, aliados ao
processo de precarização do Estado, traz de volta as políticas de
desenvolvimento que fomentam os mega-empreendimentos, agora privatizados
através das PPPs (Parcerias Público-Privadas). Delineia-se, assim, a consolidação
da aliança entre o governo e as grandes empresas – que aliás financiam as
campanhas eleitorais destes governantes – em obras como a Transposição
do rio São Francisco, as usinas nucleares, as hidrelétricas do rio Madeira, do
rio Xingu, do rio Uruguai e outras incluídas no PAC, muitas delas sem licenças
ambientais.
No campo, resgata-se uma “nova” Revolução Verde, muito mais impactante
do que na década de 70, devido à escala de produção tornar-se ainda mais
gigantesca e ao aprimoramento de tecnologias para monocultura. Fomenta-se aí o
incremento aos insumos (adubos químicos, herbicidas, inseticidas, fungicidas,
etc.) e a incorporação da transgenia como forma de controle ainda maior
das sementes por parte do Mercado. Como resultado, temos maior contaminação
química e um risco de a contaminação genética propagar-se indefinidamente,
considerando o apoio que a indústria dos transgênicos vem recebendo do
Ministério de Ciência e Tecnologia.
O Estado exime-se em não cobrar a rotulação, a segregação de sementes e
em não de realizar a fiscalização das irregularidades, em especial da entrada
ilegal de OGMs no Brasil. Neste contexto de permissividade, o patenteamento dos
seres vivos se torna algo “normal”, o que resulta na nossa cada vez maior
dependência com relação às transnacionais que controlam a produção e o mercado
agrícola. Essas coorporações obtêm lucros máximos a despeito da contaminação e
expansão continuada sobre os biomas brasileiros. Pelo menos em que se refere
aos transgênicos, a Justiça tem tido papel de destaque em impedir um avanço
ainda maior do processo de liberação.
Entretanto, o quadro agrava-se ainda mais com a opção pelos
agrocombustíves, tidos como panacéia para os problemas brasileiros. Até o
Pantanal tornou-se alvo da expansão da cana-de-açúcar, trazendo sérios
problemas de contaminação a muitos rios, até então límpidos, que serviam para
programas turísticos ligados à natureza. Os agrocombustíveis, na realidade, vão
virar commodities, sujeitas às
oscilações de mercado, com o aprofundamento dos já enormes impactos
sócio-ambientais da atual monocultura, competindo com a produção de alimentos.
O investimento em agroecologia é mínimo, destacando-se apenas ações por parte
do Ministério de Desenvolvimento Agrário e do Ministério de Meio Ambiente.
No
aspecto social, o êxodo rural continua crescente, bem como a
conseqüente favelização das cidades. Ilustrativo do
grande impacto do avanço da
fronteira agrícola e do agravamento das questões sociais
é o fato de que, das
dez cidades com maior índice de homicídios no Brasil,
sete estão situadas na
região Centro-Oeste, justamente na área do Arco do
Desmatamento, entre a
Amazônia e o Cerrado. Afora essas regiões, expandem-se
sobre o Pampa e a Mata
Atlântica milhões de hectares de mono-silvicultura de
gigantes empresas
papeleiras visando à exportação de pasta de
celulose. Ainda, no meio urbano os
parâmetros de poluição, violência e
miséria já passaram dos padrões aceitáveis,
com níveis elevados de desperdício de energia e bens de
consumo descartáveis,
resultando em uma vida insalubre e, por que não dizer, quase
insuportável para
a maioria da população.
A despeito do quadro alarmante, hoje a sociedade começa a perceber as
conseqüências perniciosas deste modelo. Porém, os governantes e a maior parte
da classe política estão afastados do tema. É fundamental que as autoridades
sejam cobradas para ações emergenciais e para a necessidade de uma reflexão, de
forma democrática, sobre os programas de desenvolvimento adotados. Da mesma
forma, deve-se pôr um freio aos mecanismos de financiamento da
insustentabilidade, que parecem ter tomado conta do país. Destaca-se aqui a
atuação do BNDES que drena bilhões de reais para grandes empreendimentos sem
cobrar a viabilidade ambiental e a responsabilidade social das empresas.
No que se refere ao Ministério de Meio Ambiente, fica evidente o caráter
de submissão a este modelo de crescimento alucinante, por meio da
concessão de licenças a mega-obras, ignorando grandes impactos
sócio-ambientais. As políticas ambientais tornaram-se, muito mais, meras
formalidades, raramente resistindo à recorrente exigência de flexibilização,
dentro da lógica de “não impedir o desenvolvimento”. Neste quadro, as
Conferências Nacionais de Meio Ambiente acabaram sendo eventos “chapa-branca”,
sem retomar as deliberações tiradas nas conferências anteriores.
No caso do Rio Grande do Sul, seguindo a mesma lógica do modelo hegemônico de
desenvolvimento do país, a situação é a mesma, senão pior. No setor agrícola,
as políticas continuam se pautando pelo investimento na exportação de commodities, em especial, soja, arroz,
trigo e celulose. Na área industrial, permanecemos presos ao paradigma dos
investimentos governamentais nos grandes empreendimentos, com utilização
midiática e eleitoral, como nos casos das montadoras automotivas e das
indústrias de celulose. Exemplo disso foram as eleições de 2006, quando o setor
da celulose finaciou as campanhas eleitorais de mais de 70 candidatos a
deputados no RS, de diversos partidos, além de candidatos ao governo do Estado.
Atualmente, o quadro ambiental no Rio Grande do Sul é dramático. No que
se refere ao Pampa, a cada ano perdem-se de 140 a 400 mil hectares de área
relativa ao bioma. O RS não tem mais do que 0,68% de Unidades de Conservação
(UCs) de proteção integral. O caso da morte de 80 toneladas de peixes no Rio
dos Sinos, no ano de 2006, além de não ter recebido até hoje a devida atenção,
demonstrou a fragilidade a que chegou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente
(SEMA).
Depois de 2002, o Estado passou por seis secretários de Meio Ambiente. A
SEMA foi quase extinta no governo anterior. Alguns setores desta Secretaria
tiveram seu quadro técnico drasticamente reduzido, como no caso da FEPAM e do
DEFAP. Esse fato agravou-se no governo atual, cuja concepção de “Estado Mínimo”
fez com que setores da FEPAM se tornassem mais um balcão de licenças do que
propriamente um órgão de gestão ambiental. A FEPAM, conquista histórica da
sociedade civil, parece estar sofrendo um processo de intervenção direcionado
ao favorecimento do setor econômico, ao arrepio mesmo da legislação ambiental.
Desde o início de 2007 até a metade do ano, as entidades ambientalistas,
por meio da APEDEMA/RS, realizaram uma série de tentativas de diálogo com a
SEMA visando resgatar alguns princípios mínimos de Políticas Ambientais,
esfaceladas nos últimos anos. As tentativas foram, contudo, infrutíferas,
considerando que a quase totalidade dos questionamentos feitos pelo movimento
ambientalista não foi sequer respondida. Outro fato relevante foi a ausência de
resposta quanto a realização de Audiência Pública sobre os projetos de
silvicultura, em Porto Alegre, solicitada pela APEDEMA e por diversas outras
entidades.
Em resumo, poderíamos elencar alguns episódios ilustrativos da
desestruturação da SEMA, quais sejam: 1) substituição precoce da Secretária de
Meio Ambiente no início deste governo; 2) criação de um GT para desconstituir o
Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS), elaborado pela própria SEMA; 3)
substituição das equipes de licenciamento por técnicos de outros setores, como
a EMATER; 4) decisão de fechamento de laboratórios de monitoramento
ambiental da FEPAM; 5) promoção acelerada dos licenciamentos municipais, mesmo
sem diretrizes consolidadas e com terceirização por parte das prefeituras; 6)
desestruturação de setores como DRH e DEFAP; 7) emissão de Licenças Prévias
dispensando o EIA-RIMA – exigência legal – como no caso das barragens de
irrigação de Taquarembó e Jaguari. E, influenciando a área, a tentativa de
extinção do Comando do Batalhão Ambiental da Brigada Militar.
O quadro de fragilização deliberada da gestão ambiental continua
favorecendo os setores da economia tradicionalmente imediatistas e promotores
da degradação. Assim, as políticas adotadas no Rio Grande do Sul permanecem
dissociadas das necessárias preocupações com a sustentabilidade, tanto no que
se refere ao modelo de desenvolvimento quanto no âmbito da gestão ambiental.
Neste caso, torna-se fundamental que sejam invertidas as prioridades,
preservando-se os instrumentos de Controle do Estado, em especial o CONSEMA,
destacando-se também o fortalecimento do quadro funcional e da infra-estrutura
da SEMA, diminuindo-se o peso dos CCs no órgão, e fortalecendo-se os
instrumentos, os programas e ações institucionais de meio ambiente, dentre
estes o Zoneamento Ambiental da Silvicultura.
Quanto à Política Ambiental do Estado, a APEDeMA-RS reitera as
reivindicações especificas do movimento ambientalista gaúcho contidas nos
documentos entregues à SEMA, no primeiro semestre de 2007, até hoje não
respondidas.
Para finalizar, independente do difícil quadro ambiental em todos os
níveis, é importante que seja assinalado que enquanto prevalecerem as velhas
concepções de crescimento econômico, com projeções de aumento de consumo e de
produção de bens, muitas vezes desnecessários, não será possível vislumbrar uma
situação mínima de sustentabilidade ambiental para as sociedades atuais e
futuras. Necessitamos de programas com metas, costuradas em conjunto entre
ONGs, sociedade, legislativo, judiciário e executivo.
Porto Alegre, 11 de novembro de 2007
APEDeMA/RS
Assembléia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do RS,
organizadora do XXVII Encontro Estadual de Entidades Ecológicas
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